A DANÇA DO VENTRE NA SUA ORIGEM
Os povos
primitivos tinham uma ligação tão forte com a natureza
que viam a si próprios como encarnações dos filhos da
grande Mãe Terra, sem fazer distinção entre corpo e natureza,
esta vida e a próxima, a realidade cotidiana e o sagrado. Tudo estava
harmoniosamente conectado. Os rituais eram dançados, através
desta comunhão entre corpo e mente expressava-se a pureza do ser e
as mais profundas emoções. A dança espelhava a vida e
reproduzia os fatos do dia-a-dia na forma de expressão artística
e sagrada. Era através da dança que se buscava compreender os
mistérios da vida e da natureza, do nascimento e da morte.
Nestas sociedades matriarcais,
centradas na horticultura e agricultura, as mulheres viviam em profunda comunhão
com sua própria natureza, sabendo interpretar todos os sinais de seu
corpo: o inchaço dos seios, bem como a sua diminuição
quando a menstruação fluía. Sabiam exatamente quando
estavam ovulando e tinham sua sensibilidade e intuição tão
aguçadas a ponto de pressentir a gravidez. Traziam o mistério
da vida dentro de seu próprio ventre, e todo o seu ser em profunda
conexão com o universo, em sintonia com o ritmo divino. Estas mulheres
ancestrais, com sua clarividência e poder de gerar a vida, eram como
que mensageiras terrestres da grande Deusa Gaia, a terra que nos nutre.
A fertilidade das mulheres,
das plantações, de toda a natureza era uma questão de
sobrevivência nesta cultura que tinha a sexualidade, a menstruação
e o nascimento como parte do conhecimento rotineiro. A Lua; com seu ciclo
de nascimento, amadurecimento e morte; era símbolo da deusa da fertilidade,
da origem do feminino. As deusas lunares existem na maioria das culturas,
conhecidas por nomes diversos como: Ishtar, Ísis, Afrodite, Diana e
Kannon. Para celebrar e pedir a benção destas deusas, as mulheres
se reuniam uma vez por mês em rituais exclusivamente femininos, geralmente
em colinas, pois estas se elevam suavemente da terra, assim como o ventre
da mulher em seu corpo. E as mulheres dançavam. Uma dança que
despertava o prazer, estimulava a energia sexual e reverenciava os mistérios
femininos. Através desta dança, as mulheres entravam em harmonia
com o universo, utilizando o corpo como um instrumento de conexão com
o divino. O tambor acompanhava esta dança e trazia o registro das batidas
do coração. As ondulações, as batidas e as vibrações
da região pélvica e do ventre estimulavam fortemente a energia
sexual, na sua conotação mais pura e sagrada. Uma dança
que pode ser considerada como a mais antiga executada por uma mulher: a dança
do ventre.
Muito aconteceu desde aquela
época até os dias de hoje. A humanidade mudou e as mulheres
atuais perderam grande parte da sua sensibilidade e conexão com a natureza.
Perder não é o melhor termo para se usar, já que acredito
que estas qualidades fazem parte da essência do feminino, jamais desaparecendo
por completo. Chego a afirmar que todas nós trazemos no nosso íntimo
o germe desta deusa ancestral, em estado latente, encoberto pela correria
da nossa vida moderna. Ele está lá, manifestando-se sempre que
baixamos a guarda da nossa extrema racionalidade, sempre que nos permitimos
sentir ao invés de entender, esperando pelo dia em que vamos deixá-lo
desabrochar por completo.
por Simone Macedo, dançarina e professora de dança
do ventre
http://www.simonemacedo.cjb.net
24/02/2005 - A dança do ventre na sua origem.
17/03/2005 - Afinal, dança do ventre cria barriga?
04/04/2005 - O aprendizado da dança do ventre e o resgate da feminilidade.